Como defender e preservar o patrimônio histórico de Salvador?
O patrimônio histórico de Salvador não é apenas um conjunto de prédios antigos. Ele está nas igrejas, nos casarões, nas praças, nas ruas de pedra, nas festas, na música, na culinária e nas histórias transmitidas entre gerações. Para o historiador e guia de turismo Roberto Pessoa, preservar esse legado é também proteger a identidade cultural e o futuro econômico da cidade.
Em entrevista ao programa Metrópole Turismo, Roberto chamou atenção para os impactos de eventos de grande porte em áreas sensíveis do Centro Histórico. A discussão vai muito além de uma escolha de programação: envolve educação patrimonial, segurança, turismo responsável e a necessidade de manter esses espaços vivos sem descaracterizá-los.
Patrimônio histórico, tombamento e a proteção pelo IPHAN
O tombamento é uma das principais ferramentas de proteção do patrimônio histórico brasileiro. Na prática, ele reconhece que determinado bem tem valor coletivo e precisa ser preservado para as próximas gerações. Esse reconhecimento pode envolver edificações, conjuntos urbanos, paisagens e também manifestações culturais.
Na conversa, Roberto Pessoa relembra a demolição da antiga Igreja da Sé de Salvador como um episódio decisivo para a discussão da proteção patrimonial no Brasil. A demolição, autorizada pelo cardeal Augusto Álvaro da Silva, provocou reações de figuras como Rui Barbosa e Metódio Coelho. A perda da igreja contribuiu para que o país debatesse a criação de mecanismos legais de defesa dos bens históricos.
Esse processo ajudou a consolidar políticas que hoje envolvem instituições como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). O tombamento, portanto, nasceu também da percepção de que determinadas perdas são irreversíveis.
O Centro Histórico de Salvador reúne uma das maiores concentrações de bens protegidos do país. A área se estende por locais como a Praça da Sé, o Terreiro de Jesus, o Largo do Pelourinho, o Carmo e o Santo Antônio Além do Carmo. Cada trecho apresenta diferentes camadas da história urbana, religiosa e social da Bahia.
Pelourinho, Praça da Sé e os desafios do uso dos espaços históricos
Preservar não significa transformar o Centro Histórico em um cenário intocável. Pelo contrário: um patrimônio só permanece vivo quando é utilizado com responsabilidade. Igrejas, museus, casarões, praças e ruas precisam receber moradores, visitantes, atividades culturais e ações educativas.
O desafio está em conciliar o uso cotidiano com a capacidade de cada espaço. Roberto Pessoa observa que megaeventos podem causar sujeira, danos materiais, insegurança e desconforto para moradores e turistas. No Pelourinho, por exemplo, uma multidão concentrada em uma área estreita pode comprometer fachadas, calçamentos e equipamentos urbanos.
Também é necessário pensar na experiência de quem visita Salvador. Mau cheiro, lixo, depredação e furtos afetam diretamente a imagem da cidade. Quando o visitante chega ao Centro Histórico e encontra um ambiente malcuidado, a percepção sobre o destino turístico é prejudicada.
Isso não significa rejeitar a música ou as manifestações culturais. Grupos como o Olodum têm enorme importância para a cultura baiana e para a projeção internacional de Salvador. A questão é escolher formatos compatíveis com cada lugar: apresentações menores, música instrumental, programação distribuída e eventos que respeitem a arquitetura e a circulação local.
A mesma reflexão pode ser aplicada ao Farol da Barra, à Câmara Municipal de Salvador e a outros espaços de grande valor simbólico. A ocupação qualificada pode gerar renda, estimular o comércio, fortalecer os serviços e aproximar a população de sua própria história.
Patrimônio material e imaterial da Bahia
Quando se fala em patrimônio, é comum pensar primeiro em monumentos e edifícios. Esse é o patrimônio material: igrejas, casarões, praças, fortificações, documentos e objetos. Salvador possui exemplos marcantes desse conjunto, especialmente em seu Centro Histórico e em seu patrimônio religioso.
Mas a Bahia também é reconhecida por seu patrimônio imaterial. O ofício das baianas de acarajé, o Samba de Roda do Recôncavo, as festas populares, os saberes culinários e as tradições musicais fazem parte de uma memória que não está limitada às paredes de um prédio.
O Samba de Roda do Recôncavo é um exemplo citado na entrevista. Sua importância mostra que preservar cultura também significa proteger práticas, conhecimentos e formas de expressão. Uma tradição permanece viva quando as comunidades podem praticá-la, ensiná-la e transmiti-la.
Por isso, a educação patrimonial é essencial. Crianças e jovens precisam compreender por que não se deve riscar uma parede histórica, danificar um monumento ou tratar uma praça como espaço descartável. A preservação começa em atitudes simples, mas depende de uma consciência coletiva construída em casa, nas escolas e durante as visitas guiadas.
Conheça esses lugares na prática
Uma caminhada pelo Centro Histórico permite observar como a história de Salvador aparece em diferentes escalas: na monumentalidade da Igreja e do Convento de São Francisco, nas fachadas do Largo do Pelourinho, na Praça da Sé, no Terreiro de Jesus e nas ruas que levam ao Carmo e ao Santo Antônio Além do Carmo.
Para compreender melhor essa paisagem, o City Tour Histórico de Salvador apresenta os principais marcos da formação da cidade, suas transformações e os desafios atuais de preservação.
Quem deseja aprofundar a relação entre fé, arquitetura e memória pode conhecer o tour de Patrimônio Religioso, dedicado às igrejas, irmandades e tradições que ajudaram a construir a identidade soteropolitana.
Turismo cultural como fonte de renda e responsabilidade
Salvador possui uma vocação evidente para o turismo cultural. A cidade reúne história, litoral, arquitetura, música, gastronomia e manifestações populares em um território singular. No entanto, essa vocação precisa ser planejada.
Roberto Pessoa também menciona o potencial do turismo náutico, considerando a Baía de Todos-os-Santos e o mar aberto como recursos importantes para diversificar a economia local. O turismo cultural e o turismo náutico podem caminhar juntos, desde que valorizem o patrimônio, gerem benefícios para a população e respeitem os limites ambientais e urbanos.
O patrimônio não deve ser visto apenas como algo que precisa de manutenção. Ele pode ser motor de trabalho, renda e pertencimento. Para isso, é necessário investir em segurança, limpeza, formação profissional, acessibilidade, programação cultural e uso responsável dos espaços.
O que Roberto Pessoa ensina sobre preservação patrimonial
Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia de turismo, Roberto Pessoa ensina que conhecer Salvador exige olhar para além das imagens conhecidas. O Pelourinho, uma igreja ou um casarão não são apenas pontos para fotografar: são testemunhos de conflitos, crenças, relações sociais e escolhas que moldaram a cidade.
Sua abordagem aproxima a história da vida cotidiana. Ao falar sobre tombamento, demolições, patrimônio imaterial e educação patrimonial, Roberto mostra que preservar é uma tarefa compartilhada entre poder público, moradores, empresários, visitantes e instituições culturais.
A principal lição é simples: usar o patrimônio é necessário, mas usá-lo bem é indispensável. A cidade precisa permanecer ativa sem perder os sinais que tornam Salvador única.
Perguntas frequentes sobre a preservação do patrimônio histórico de Salvador
Por que o Centro Histórico de Salvador precisa de preservação?
Porque seus casarões, igrejas, ruas e manifestações culturais guardam a memória da formação da Bahia. Preservá-los também ajuda a manter a identidade da cidade e fortalecer o turismo cultural.
O que significa tombamento de um patrimônio?
O tombamento é o reconhecimento oficial de que um bem possui valor histórico, cultural, artístico ou ambiental e deve ser protegido. Ele não significa abandonar o espaço, mas orientar seu uso e sua conservação.
Quais patrimônios da Bahia são reconhecidos pela Unesco?
Entre os exemplos citados estão o Centro Histórico de Salvador, a Costa do Descobrimento e o Samba de Roda do Recôncavo, que representa o patrimônio imaterial baiano.
Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador.
Perguntas frequentes
- Por que o Centro Histórico de Salvador precisa de preservação?
- Porque seus casarões, igrejas, ruas e manifestações culturais guardam a memória da formação da Bahia. Preservá-los também ajuda a manter a identidade da cidade e fortalecer o turismo cultural.
- O que significa tombamento de um patrimônio?
- O tombamento é o reconhecimento oficial de que um bem possui valor histórico, cultural, artístico ou ambiental e deve ser protegido. Ele não significa abandonar o espaço, mas orientar seu uso e sua conservação.
- Quais patrimônios da Bahia são reconhecidos pela Unesco?
- Entre os exemplos citados estão o Centro Histórico de Salvador, a Costa do Descobrimento e o Samba de Roda do Recôncavo, que representa o patrimônio imaterial baiano.
