De onde vem o Carnaval? A resposta começa no Rio Nilo
O Carnaval de Salvador é uma das maiores festas populares do mundo, mas suas raízes vão muito além do Brasil — chegam até as margens do Rio Nilo, há mais de seis mil anos. Roberto Pessoa, historiador e guia de turismo com mais de 45 anos dedicados à história de Salvador, gosta de começar sempre pelo começo: a origem da festa está nas primeiras colheitas da humanidade.
"Desde o aparecimento da agricultura, há cerca de 4 mil anos antes de Cristo, as pessoas celebravam a primavera e o fim das cheias do Nilo com festas, exageros e permissividade", explica Roberto. Era uma celebração da natureza pródiga — do vinho, da cevada, da fartura que chegava depois do inverno.
Por que o Carnaval muda de data todo ano?
Essa é uma das perguntas que Roberto Pessoa mais aprecia responder. A data do Carnaval não é fixa porque está amarrada ao Domingo de Páscoa — e a Páscoa, por sua vez, segue o equinócio de primavera no hemisfério norte.
A Igreja Católica, na Idade Média, adotou a expressão latina Mardi Gras ("terça-feira gorda") como o último dia de fartura antes da Quaresma. A lógica era simples: antes de 40 dias de jejum e penitência, a carne era liberada — daí a etimologia de carni vale, "adeus à carne". A âncora de todo esse calendário, como ensina Roberto, é um só: o Domingo de Páscoa, calculado a partir do primeiro plenilúnio após o equinócio de março.
"Daqui a 100, 200 milhões de anos, a gente já sabe quando vai ser o Domingo de Páscoa", brinca o professor. E sabendo a Páscoa, sabe-se automaticamente o Carnaval, o Corpus Christi, o Pentecostes.
O Carnaval chega às ruas de Salvador: 1884 e os primeiros afoxés
O Carnaval oficial de Salvador foi registrado pela primeira vez em 1884, durante o Brasil Império. Mas antes de conquistar as ruas, a festa acontecia nos clubes e nos salões da elite soteropolitana — uma herança europeia de bailes mascarados.
As ruas foram tomadas por outro lado. Em 1886, a Embaixada Africana saiu em cortejo pelas ruas de Salvador — um dos primeiros afoxés da cidade, seguido do Panamigas da África. Esses grupos, com tambores, chocalhos e referências à religiosidade africana, sofreram discriminação: foram empurrados para longe da Avenida Sete de Setembro e confinados à Baixa dos Sapateiros.
Roberto Pessoa cita Darcy Ribeiro para explicar o que aconteceu depois: a miscigenação — aquela que "desafricanizou os negros, destribalizou os indígenas e deseuropeizou os brancos" — criou o povo festivo brasileiro. O Carnaval de Salvador seria a expressão mais exuberante desse encontro.
Conheça esses lugares na prática
O tour Festas e Tradições de Roberto Pessoa percorre os circuitos históricos do Carnaval de Salvador — do Campo Grande ao Pelourinho, passando pela Igreja do Bonfim e pela Barra. Roberto conta in loco a história de cada espaço, das primeiras procissões africanas à era dos trios elétricos.
Chiquinha Gonzaga, Dodô e Osmar: quem fez a história musical do Carnaval
Em 1899, a pianista e compositora Chiquinha Gonzaga criou "Ó Abre Alas", considerada a primeira música oficial de Carnaval do Brasil. Era uma marcha para o rancho Rosas de Ouro, no Rio de Janeiro — mas o gesto de Chiquinha ecoou pelo país inteiro.
Em Salvador, a virada musical aconteceu em 1950. Dodô e Osmar instalaram instrumentos elétricos em cima de uma fobica — um Ford 1929 — e saíram tocando frevo pelas ruas. Nascia o trio elétrico. O que começou como uma brincadeira de dois amigos inventivos transformou o Carnaval de rua de Salvador no mais grandioso do mundo, com caminhões de vários andares, sistemas de som gigantescos e artistas como Daniela Mercury, Saulo Fernandes e Claudia Leitte arrastando multidões pelos circuitos Barra-Ondina e Campo Grande.
Os cartões-postais que o Carnaval mostra ao mundo
Para Roberto Pessoa, o Carnaval é também o momento em que Salvador se revela inteira para os visitantes. Enquanto os trios passam pela Barra, o turista tem diante dos olhos o Farol da Barra e o Forte São Marcelo. Na curva do Campo Grande, avista a Praça Castro Alves. No Pelourinho — o circuito Dodô — cada ladeira e cada largo têm séculos de história.
"A curva do Campo Grande emociona", diz Roberto. E ele sabe do que fala: morava em um bairro onde os blocos passavam na porta de casa. O Carnaval, para ele, não é só uma festa. É uma forma de pertencer à cidade.
O que Roberto Pessoa ensina sobre o Carnaval de Salvador
Para Roberto Pessoa, o Carnaval é uma chave de leitura da história de Salvador. Em mais de 45 anos como historiador e guia credenciado, ele aprendeu que a festa não pode ser separada da identidade soteropolitana — do entrelaçamento entre as tradições africanas, europeias e indígenas que formaram a Bahia.
Esse episódio faz parte de um canal com mais de 112 episódios sobre história e cultura de Salvador, onde Roberto transforma cada tema em uma aula viva. O Carnaval é um desses temas que ele conhece de dentro: das origens milenares à saudade dos Carnavais cancelados pela pandemia de COVID-19 em 2021 e 2022.
Perguntas frequentes sobre o Carnaval de Salvador
Por que a data do Carnaval muda todo ano? A data é calculada a partir do Domingo de Páscoa, que segue o equinócio de primavera no hemisfério norte. Por isso o Carnaval cai sempre entre fevereiro e março, na terça-feira antes da Quarta-feira de Cinzas.
Quando surgiu o primeiro Carnaval oficial de Salvador? O primeiro Carnaval oficial de Salvador foi em 1884, ainda durante o Brasil Império. Inicialmente restrito aos clubes da elite, foi gradualmente conquistando as ruas da cidade.
O que é um afoxé no Carnaval baiano? O afoxé é um cortejo carnavalesco de raiz africana, com forte vínculo com o candomblé. Em 1886, a Embaixada Africana foi um dos primeiros afoxés a sair pelas ruas de Salvador. O Filhos de Gandhy, fundado em 1949, é o afoxé mais famoso da cidade.
Quem inventou o trio elétrico? Dodô e Osmar, em 1950, instalaram instrumentos elétricos numa fobica (Ford 1929) e saíram tocando frevo pelas ruas. A invenção transformou o Carnaval baiano e influenciou toda a indústria musical brasileira.
Qual foi a primeira música oficial de Carnaval do Brasil? "Ó Abre Alas", composta por Chiquinha Gonzaga em 1899, é considerada a primeira música oficial de Carnaval do Brasil.
Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador. Agende pelo WhatsApp e descubra a cidade com quem dedicou a vida a ela.
Perguntas frequentes
- Por que a data do Carnaval muda todo ano?
- A data do Carnaval é calculada a partir do Domingo de Páscoa, que por sua vez segue o equinócio de primavera no hemisfério norte. Por isso o Carnaval pode cair entre fevereiro e março, sempre na terça-feira que antecede a Quarta-feira de Cinzas.
- Quando surgiu o primeiro Carnaval oficial de Salvador?
- O primeiro Carnaval oficial de Salvador aconteceu em 1884, durante o período do Brasil Império. Nessa época, a festa ainda estava restrita aos clubes da classe média alta e só gradualmente foi tomando as ruas da cidade.
- O que é um afoxé no Carnaval baiano?
- O afoxé é um cortejo carnavalesco de raiz africana e religiosa. Em 1886, a Embaixada Africana saiu pelas ruas de Salvador como um dos primeiros afoxés registrados. O Filhos de Gandhy, fundado em 1949, é o mais famoso até hoje.
- Quem inventou o trio elétrico?
- O trio elétrico foi criado por Dodô e Osmar, que em 1950 instalaram instrumentos elétricos numa fobica (um Ford 1929) e saíram tocando frevo pelas ruas de Salvador. A invenção transformou o Carnaval brasileiro para sempre.
- Qual foi a primeira música oficial de Carnaval do Brasil?
- A primeira música oficial de Carnaval do Brasil foi 'Ó Abre Alas', composta por Chiquinha Gonzaga em 1899 especialmente para o rancho Rosas de Ouro, no Rio de Janeiro.
