A Proclamação da República foi um golpe militar?
Todo feriado carrega uma história — mas nem sempre a história contada sobre ele revela todos os seus conflitos. Em 15 de novembro, o Brasil interrompe suas atividades para lembrar a Proclamação da República de 1889. Para Roberto Pessoa, historiador e guia de turismo em Salvador, a data também convida a uma pergunta incômoda: a República nasceu de uma grande mobilização popular ou de um golpe militar?
A resposta exige voltar ao final do Segundo Reinado, quando o Império enfrentava tensões entre militares, proprietários rurais, republicanos e setores influenciados pelo positivismo. A queda de Dom Pedro II não foi resultado de uma eleição ou de uma consulta ampla à população. Foi uma mudança de regime conduzida por grupos organizados, especialmente dentro do Exército.
15 de novembro e o fim do Segundo Reinado
A Proclamação da República aconteceu em 15 de novembro de 1889, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. O marechal Deodoro da Fonseca liderou o movimento que derrubou o gabinete do visconde de Ouro Preto e encerrou a monarquia brasileira.
O episódio foi precedido por anos de desgaste político. A Guerra do Paraguai, encerrada em 1870, fortaleceu o Exército e ampliou a insatisfação de oficiais com o governo imperial. No mesmo ano, o Manifesto Republicano passou a defender publicamente uma mudança na forma de governo.
A abolição da escravatura, em 13 de maio de 1888, também alterou o equilíbrio político. A Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel, desagradou muitos proprietários escravistas, enquanto o movimento republicano passou a explorar o descontentamento com a monarquia. O Império perdeu apoios importantes, mas isso não significa que a população tenha participado diretamente da decisão de derrubar Dom Pedro II.
Na leitura apresentada por Roberto Pessoa, circularam ainda informações falsas e boatos políticos para convencer militares de que o governo pretendia perseguir ou prender lideranças do Exército. Essas notícias ajudaram a criar o ambiente necessário para a ação de Deodoro da Fonseca e de outros republicanos militares, como Benjamin Constant.
A República também faz parte da história de Salvador
Embora a Proclamação tenha ocorrido no Rio de Janeiro, seus efeitos alcançaram Salvador e todas as demais províncias brasileiras. A capital baiana, com sua arquitetura religiosa, seus largos e seus monumentos, preserva marcas de diferentes períodos da história política do país.
A Igreja da Conceição da Praia, na Cidade Baixa, é um ponto importante para compreender a Salvador do século XIX. Localizada próxima ao antigo centro comercial e portuário, a igreja testemunhou transformações sociais, econômicas e políticas que atravessaram o fim do Império e o início da República.
Outro local associado à memória republicana é a Estátua de Manuel Vitorino Pereira, em Salvador. Médico, político baiano e vice-presidente da República, Manuel Vitorino participou da vida pública nos primeiros anos do novo regime. Sua trajetória ajuda a perceber como a Bahia se conectou aos debates políticos da Primeira República.
O Cabula também pode ser incluído em um roteiro histórico mais amplo pela cidade. A região guarda camadas de memória relacionadas à expansão urbana de Salvador, às antigas propriedades e às mudanças sociais que aconteceram entre o período imperial e o republicano. Caminhar pela cidade com esse olhar permite entender que a história nacional não ficou restrita aos palácios do Rio de Janeiro.
Conheça esses lugares na prática
Para observar como a história do Brasil aparece na paisagem de Salvador, uma boa opção é fazer o City Tour Histórico de Salvador. O roteiro pode conectar igrejas, praças, monumentos e bairros que ajudam a contar a formação política e cultural da cidade.
O tour Patrimônio Religioso também oferece uma perspectiva especial. Igrejas como a da Conceição da Praia revelam relações entre fé, poder, arte e sociedade em diferentes momentos da história brasileira.
República da Espada, bandeira e novos símbolos
Depois da queda da monarquia, o Brasil entrou no período conhecido como República da Espada, marcado pelos governos militares de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. A Primeira Constituição Republicana foi promulgada em 1891, consolidando novas instituições e definindo a estrutura do regime.
A mudança política veio acompanhada de novos símbolos. A bandeira imperial foi substituída por uma bandeira republicana, e o lema positivista “Ordem e Progresso” passou a representar o projeto de modernização defendido por parte dos militares e intelectuais da época.
Apesar dessas transformações, a população não ocupou o centro da decisão. A famosa expressão “bestializados”, usada para descrever a reação popular no Rio de Janeiro, resume a percepção de que muitos brasileiros assistiram à mudança de regime sem compreender completamente o que estava acontecendo ou sem terem sido convidados a participar dela.
Décadas depois, o Brasil voltou a discutir sua forma de governo no plebiscito de 1993, quando a população escolheu manter a República e o presidencialismo. Essa diferença é fundamental: em 1889, a República foi proclamada por uma ação política e militar; em 1993, a população foi chamada a votar diretamente sobre o tema.
O que Roberto Pessoa ensina sobre a Proclamação da República
Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia de turismo, Roberto Pessoa apresenta a história como uma investigação, não como uma sequência de datas decoradas. Ao explicar a Proclamação da República, ele destaca os personagens, os interesses e as disputas que costumam desaparecer das versões mais resumidas dos livros escolares.
Sua abordagem ajuda a diferenciar memória oficial, propaganda política e participação popular. O 15 de novembro continua sendo um feriado nacional, mas também pode ser compreendido como uma oportunidade para perguntar quem tomou as decisões, quais grupos foram beneficiados e como a população comum recebeu a notícia.
Perguntas frequentes sobre a Proclamação da República
Por que 15 de novembro é feriado no Brasil?
A data marca a Proclamação da República, ocorrida em 15 de novembro de 1889. O feriado preserva a memória da mudança do regime monárquico para o republicano.
A Proclamação da República foi um golpe militar?
Na interpretação apresentada por Roberto Pessoa, sim. A mudança foi articulada principalmente por militares e grupos republicanos, sem participação popular ampla nas decisões que derrubaram a monarquia.
O que aconteceu com Dom Pedro II depois da Proclamação da República?
Dom Pedro II foi deposto e deixou o Brasil com a família imperial. O novo governo republicano foi inicialmente organizado por militares, inaugurando o período conhecido como República da Espada.
Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador.
Perguntas frequentes
- Por que 15 de novembro é feriado no Brasil?
- A data marca a Proclamação da República, ocorrida em 15 de novembro de 1889. O feriado preserva a memória da mudança do regime monárquico para o republicano.
- A Proclamação da República foi um golpe militar?
- Na interpretação apresentada por Roberto Pessoa, sim. A mudança foi articulada principalmente por militares e grupos republicanos, sem participação popular ampla nas decisões.
- O que aconteceu com Dom Pedro II depois da Proclamação da República?
- Dom Pedro II foi deposto e deixou o Brasil com a família imperial. O novo governo republicano foi inicialmente organizado por militares, período conhecido como República da Espada.
