O que a parte sul de Salvador revela sobre a origem da cidade?
Antes de Salvador ser fundada oficialmente, a região que hoje reúne Graça, Vitória, Barra, Canela e Garcia já era um território de encontros, disputas e formação social. Foi ali, entre o mar aberto e a Baía de Todos-os-Santos, que diferentes povos começaram a construir uma história que antecede a própria capital baiana.
No episódio do programa Metrópole Turismo, o historiador e guia Roberto Pessoa explica como a chamada parte sul de Salvador ajuda a compreender os primeiros povoamentos europeus na Bahia. Mais do que uma divisão geográfica, essa área guarda vestígios da antiga Vila Velha, das primeiras rotas de navegação e das estruturas criadas para defender a entrada da baía.
Vila Velha, Caramuru e Catarina Paraguaçu
A história da parte sul de Salvador começa antes de 1549, ano da fundação oficial da cidade. Segundo Roberto Pessoa, os primeiros europeus se estabeleceram especialmente nas áreas próximas à Graça, à Vitória e à Barra.
É nesse contexto que aparece a figura de Diogo Álvares Correia, conhecido como Caramuru. Sua presença está associada ao encontro com Catarina Paraguaçu, indígena originária cuja trajetória se tornou parte fundamental das narrativas sobre os primeiros contatos entre europeus e povos indígenas na Bahia.
A família formada por Caramuru e Catarina teve papel importante na ocupação inicial daquele território. O povoamento se expandiu pela península e criou uma rede de relações que já existia quando Tomé de Sousa chegou para fundar Salvador.
A antiga Vila Velha também se relaciona a Francisco Pereira Coutinho, donatário da Capitania da Bahia. O povoamento instalado na região funcionava como núcleo anterior à cidade planejada pela Coroa portuguesa. Por isso, a expressão “Vila Velha” não é apenas uma referência turística: ela indica uma camada mais antiga da formação de Salvador.
Porto da Barra e os primeiros caminhos de Salvador
O Porto da Barra ocupa um lugar especial nessa geografia histórica. Situado entre o Farol da Barra e o Forte de Santa Maria, o local era uma entrada natural para quem chegava pelo mar e um ponto estratégico para a circulação na costa.
No programa, Roberto Pessoa menciona a chegada de africanos ao Porto da Barra em 1538, trazidos para trabalhar na Vila Velha. Essa informação evidencia que a formação da cidade envolveu, desde os seus primeiros momentos, a presença e o trabalho de populações indígenas, europeias e africanas.
Quando Salvador foi fundada em 1549, a cidade recebeu muralhas e portas de acesso. A chamada Porta Sul, ou Porta de Santa Catarina, conectava a área urbana à direção da Barra. A Porta Norte, relacionada à região do Carmo, organizava outro eixo de circulação.
Essa antiga delimitação ajuda a entender por que a parte sul de Salvador pode ser pensada como uma área que se estende da Piedade, da Avenida Sete de Setembro e de São Bento até Campo Grande, Vitória, Canela, Garcia e Barra. O Rio Vermelho aparece como uma extensão litorânea ao sul, enquanto a península se abre para diferentes direções marítimas.
Fortificações, faróis e a defesa da Baía de Todos-os-Santos
A posição de Salvador exigia atenção permanente à defesa. A entrada da Baía de Todos-os-Santos era essencial para o comércio, para a navegação e para a ligação entre a cidade e o Atlântico. Por isso, a região da Barra recebeu fortes e estruturas militares ao longo dos séculos.
O Farol da Barra é um dos símbolos mais conhecidos desse sistema. Instalado em uma área de grande visibilidade, ele orientava embarcações que se aproximavam da costa. Roberto Pessoa também relaciona a geografia dos faróis de Salvador: o Farol da Barra marca uma extremidade, o Farol de Itapuã aparece no lado leste e o Farol de Mont Serrat se posiciona na direção oeste da baía.
As igrejas antigas da Graça, da Vitória e da Barra também ajudam a acompanhar o crescimento da cidade. A Igreja da Vitória, cuja origem remonta ao século XVI, é lembrada como uma das primeiras construções religiosas da região. Esses templos não são apenas espaços de fé: suas localizações revelam os caminhos percorridos pela população e a expansão dos núcleos de ocupação.
Os nomes dos bairros também guardam pistas do passado. “Canela”, por exemplo, evoca a antiga paisagem verde e estreita daquela parte da península. “Gamboa” remete a uma forma tradicional de pesca, associada a cercados ou armadilhas instaladas em áreas de maré. A toponímia transforma a cidade em um verdadeiro arquivo a céu aberto.
Conheça esses lugares na prática
A melhor maneira de perceber a história da parte sul de Salvador é caminhar por seus diferentes cenários: observar a Baía de Todos-os-Santos a partir da Vitória, atravessar o Campo Grande, reconhecer as encostas da Graça e terminar o percurso diante do mar no Porto da Barra.
Nos tours Bairros de Salvador, é possível compreender como os bairros, as igrejas, as avenidas e as antigas áreas de passagem se conectam. Já o roteiro Litoral e Natureza ajuda a perceber a relação entre faróis, fortes, praias e navegação.
Canela, Gamboa e outras histórias escondidas nos nomes
Uma das formas mais interessantes de estudar Salvador é observar o significado de seus nomes. Eles revelam paisagens que muitas vezes desapareceram com a urbanização.
Canela, hoje associada à Universidade Federal da Bahia, ao Campo Grande e à Avenida Centenário, fazia parte de uma área mais verde e marcada pela forma da península. Gamboa, por sua vez, preserva no próprio nome a memória de práticas de pesca e da relação cotidiana entre comunidades e águas da baía.
Também é importante lembrar que a história desses bairros não se resume aos personagens mais conhecidos. O programa cita estudiosos e intelectuais como Gabriel Soares de Sousa, Barão do Rio Branco, Teodoro Sampaio, André Rebouças e outros nomes que ajudaram a registrar, interpretar e discutir a formação da Bahia.
O que Roberto Pessoa ensina sobre a parte sul de Salvador
Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia, Roberto Pessoa ensina que Salvador deve ser lida como uma cidade formada por camadas. A Barra não é apenas uma praia; a Vitória não é apenas um bairro residencial; a Graça não é apenas uma área nobre.
Cada lugar reúne vestígios de diferentes épocas: ocupações indígenas, povoamentos europeus, trabalho africano, igrejas, fortes, caminhos, disputas políticas e transformações urbanas. Ao conectar a antiga Vila Velha à fundação de Salvador, Roberto mostra que a história da cidade não começa em um único dia. Ela se constrói gradualmente, em torno de pessoas, paisagens e decisões estratégicas.
Perguntas frequentes sobre a parte sul de Salvador
Qual é a parte sul de Salvador?
Historicamente, a parte sul inclui Piedade, Campo Grande, Garcia, Canela, Vitória e Barra. A delimitação também se relaciona à antiga Porta Sul, que ligava a cidade muralhada à direção da Barra.
O que era a Vila Velha?
A Vila Velha era um povoamento anterior à fundação oficial de Salvador, localizado na área próxima à Graça, Vitória e Barra. Sua história está ligada a Caramuru, Catarina Paraguaçu e Francisco Pereira Coutinho.
Por que o Porto da Barra é importante?
O Porto da Barra era um ponto estratégico de chegada e circulação. Sua localização favorecia a entrada na baía e a conexão com os primeiros núcleos de povoamento da região.
Qual é a relação entre os faróis de Salvador?
O Farol da Barra, o Farol de Itapuã e o Farol de Mont Serrat orientam diferentes áreas da costa e da Baía de Todos-os-Santos. Juntos, ajudam a compreender a posição marítima estratégica de Salvador.
Para transformar essa leitura em experiência, Roberto Pessoa está disponível para tours privados em Salvador.
Perguntas frequentes
- Qual é a parte sul de Salvador?
- Historicamente, a parte sul de Salvador compreende áreas como Piedade, Campo Grande, Garcia, Canela, Vitória e Barra. O conceito também se relaciona à antiga Porta Sul da cidade, entre a Praça Castro Alves e a Barra.
- O que era a Vila Velha de Salvador?
- A Vila Velha era um povoamento anterior à fundação de Salvador, associado à região da Graça, Vitória e Barra. Foi ligada à presença de Caramuru, Catarina Paraguaçu e, depois, à vila do donatário Francisco Pereira Coutinho.
- Qual é a importância histórica do Porto da Barra?
- O Porto da Barra foi um dos principais pontos de chegada e ocupação inicial da região. De acordo com o episódio, africanos chegaram ali em 1538 para trabalhar na Vila Velha.
