Roberto Pessoa
O legado africano em Salvador: muito além do candomblé
Cultura Afro-brasileira

O legado africano em Salvador: muito além do candomblé

20 de novembro de 2024legado africanocultura afrobantoiorubáSalvador

A África que vive em Salvador

Quando se fala da herança africana em Salvador, o primeiro pensamento costuma ser o candomblé. Mas a influência dos povos africanos na capital baiana vai infinitamente além da religião. Ela está na comida que você come, nas palavras que você fala, na música que você ouve, na forma como a cidade se organiza.

Roberto Pessoa dedica parte significativa de seus estudos a mostrar a profundidade e a abrangência do legado africano em Salvador — uma herança que muitas vezes é invisibilizada ou reduzida a estereótipos.

As nações africanas na Bahia

Os africanos trazidos à Bahia vieram de diferentes regiões e povos. Roberto explica as duas grandes matrizes:

  • Bantos — vindos principalmente de Angola, Congo e Moçambique. Chegaram em maior número e deixaram marcas profundas na língua, na música (samba, capoeira) e no candomblé de nação Angola.
  • Iorubás (Nagôs) — vindos da Nigéria e do Benin. Trouxeram uma tradição religiosa altamente organizada que deu origem ao candomblé de nação Ketu, o mais conhecido.

Na língua do dia a dia

Dezenas de palavras do português brasileiro vêm de línguas africanas:

  • Do banto: samba, moleque, caçula, cochilo, dengue, fubá, jiló, quilombo
  • Do iorubá: axé, abadá, acarajé, vatapá, orixá, bagunça

Roberto mostra que essas palavras não são curiosidades linguísticas — são evidências de uma influência cultural tão profunda que se incorporou à própria estrutura da língua.

Na culinária

A cozinha baiana é essencialmente africana. O azeite de dendê, o leite de coco, a pimenta, o quiabo, o inhame — ingredientes que definem a culinária da Bahia — vieram da África ou foram combinados com técnicas africanas de preparo.

O acarajé, hoje símbolo maior da gastronomia baiana, é na verdade um acará (bolinho de feijão frito) que tem origem nas oferendas a Iansã no candomblé. A moqueca baiana é prima das moquecas angolanas.

Na música e na dança

O samba nasceu das rodas de batuque dos escravizados. A capoeira, que combina luta, dança e música, é uma criação dos africanos na Bahia. Os blocos afro do Carnaval — Olodum, Ilê Aiyê, Muzenza — resgataram ritmos e estéticas africanas para transformar a maior festa popular do Brasil.

Na organização social

Roberto destaca algo que poucos percebem: a própria organização social de Salvador tem raízes africanas. As irmandades religiosas negras, os terreiros de candomblé, as comunidades quilombolas e as redes de solidariedade entre as baianas de acarajé são formas de organização que remetem a modelos africanos de comunidade.

Uma dívida a reconhecer

O legado africano é o alicerce de Salvador. Reconhecer isso não é exercício acadêmico — é questão de justiça. Roberto Pessoa faz de cada tour uma oportunidade de lembrar que Salvador não seria Salvador sem a África.