Como a história do bairro São Caetano revela a formação de Salvador?
Antes de ser um bairro populoso, São Caetano era uma área de mata densa, fazendas e fontes de água. A paisagem hoje marcada por ruas, casas e intensa circulação guarda vestígios de diferentes ciclos da história de Salvador. Em sua participação na Rádio Metrópole, o historiador e guia Roberto Pessoa percorre essas transformações e mostra como território, memória e identidade se misturam na formação da cidade.
A história de São Caetano também é marcada pela presença da família Schindler, pela chegada de moradores do Recôncavo Baiano e pela permanência de referências como a Fonte da Bica, a Rua da Formiga e a Capela de São Caetano.
São Caetano e as antigas fazendas de Salvador
Até o século XVIII, Salvador se concentrava principalmente no centro histórico e em seus arredores, como Pelourinho, Carmo, Santo Antônio, Soledade, Lapinha, Graça e Vitória. Fora dessas áreas mais ocupadas, predominavam grandes propriedades rurais e fazendas.
Segundo Roberto Pessoa, boa parte da Salvador daquele período era formada por extensas áreas de terra herdadas de antigos capitães, donatários e suas famílias. A região que mais tarde se tornaria São Caetano permaneceu vinculada a esse cenário rural até o século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Entre as propriedades citadas estão a Fazenda Boa Esperança e a Fazenda Cruzeiro do Sul. O território era coberto por vegetação abundante, com matas, animais e fontes naturais. A terra, então mais barata, atraiu pessoas interessadas em adquirir grandes chácaras e terrenos na Península de Salvador.
Essa paisagem começou a mudar quando áreas das antigas fazendas foram vendidas, desmembradas e transformadas em lotes. O processo de ocupação urbana foi gradual, mas ganhou força com a chegada de novos moradores em busca de trabalho, moradia e melhores oportunidades.
A família Schindler, os loteamentos e a Fonte da Bica
Um dos capítulos mais importantes da história de São Caetano envolve Renato Schindler. De acordo com o relato apresentado por Roberto Pessoa, Schindler chegou ao Brasil após sua aposentadoria e adquiriu terras na região das antigas fazendas. A família passou a vender lotes e a facilitar a instalação de pessoas que chegavam de outras partes da Bahia.
Essa atuação contribuiu para a transformação de uma área rural em um território residencial. Regiões como o Baixo Areal, a Formiga e Sussunga passaram a integrar uma rede de ruas e comunidades que crescia conforme novos moradores se estabeleciam.
Durante muito tempo, parte da área também foi conhecida informalmente como Fuminho. O nome sobrevive na memória de moradores mais antigos, embora a denominação oficial e mais conhecida seja São Caetano.
Outro marco da infraestrutura local foi a Fonte da Bica. Na década de 1970, a família Schindler teria contribuído para a articulação que levou água encanada ao bairro, em parceria com a Embasa e o poder público. Com isso, a fonte deixou de ser apenas um ponto de abastecimento e passou a representar a memória de uma época em que as fontes naturais eram essenciais para a vida cotidiana.
A Rua Austriciliano de Carvalho, a Rua da Bica e outras vias preservam parte dessa memória territorial. São nomes que ajudam a compreender como o bairro cresceu e como antigas referências permaneceram na paisagem urbana.
O nome São Caetano e a resistência da memória comunitária
A permanência do nome São Caetano revela a força das referências religiosas e comunitárias na história de Salvador. A devoção a São Caetano aparece associada à formação da área e à construção de espaços religiosos, entre eles a Capela de São Caetano da Providência Divina.
Na década de 1960, após o assassinato do presidente norte-americano John Kennedy, houve uma tentativa de homenageá-lo modificando o nome do bairro. A proposta não se consolidou: São Caetano continuou sendo o nome reconhecido pelos moradores. A homenagem acabou associada à Avenida Kennedy.
Esse episódio demonstra que os nomes dos bairros não são apenas escolhas administrativas. Eles carregam afetos, lembranças familiares, práticas religiosas e o sentimento de pertencimento de quem vive no lugar.
A Rua Promotor Rapol de Filho, conhecida popularmente como Rua da Formiga, também faz parte dessa cartografia afetiva. O nome oficial convive com a denominação popular, mostrando como a comunidade participa da construção da identidade do bairro.
São Caetano, o Recôncavo e a presença afrodescendente
A expansão de São Caetano esteve ligada a um intenso fluxo migratório vindo do Recôncavo Baiano e do sertão. Muitas famílias afrodescendentes se instalaram na região, levando consigo práticas culturais, formas de organização comunitária, religiosidade, música e tradições de origem africana.
A proximidade cultural com bairros como Liberdade e outras áreas do chamado Miolo de Salvador reforçou essa identidade. O Recôncavo, historicamente marcado pela presença africana e afro-brasileira, foi uma das principais matrizes culturais da população que chegou à capital.
Roberto Pessoa também destaca personalidades ligadas ao bairro, como o mestre de capoeira Caissara, além de músicos, compositores e grupos associados à cultura popular de Salvador. A presença de artistas e lideranças comunitárias ajuda a mostrar que São Caetano não é apenas um espaço de moradia: é também um território de criação cultural.
A memória da própria família Schindler se cruza com essa história. O relato menciona o casamento do avô de Schindler, de origem alemã, com Erudina Schindler, uma mulher afrodescendente. Essa trajetória evidencia os encontros, as mestiçagens e as relações sociais que fazem parte da formação da população soteropolitana.
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O que Roberto Pessoa ensina sobre a história de São Caetano?
Com mais de 45 anos de atuação como historiador e guia, Roberto Pessoa ensina que a história de Salvador está presente tanto nos monumentos conhecidos quanto nas ruas, fontes, capelas e nomes preservados pela população.
Ao falar de São Caetano, ele conecta antigas fazendas, loteamentos, migrações, religiosidade e cultura afrodescendente. Seu trabalho mostra que conhecer um bairro é compreender as pessoas que ocuparam o território, defenderam suas memórias e transformaram a paisagem ao longo do tempo.
Perguntas frequentes sobre a história de São Caetano
Como surgiu o bairro de São Caetano?
A área surgiu a partir de antigas fazendas, especialmente a Boa Esperança e a Cruzeiro do Sul. Com a venda de lotes e a chegada de famílias de diferentes regiões da Bahia, o território se transformou em um bairro densamente povoado.
Por que o bairro se chama São Caetano?
O nome está ligado à devoção a São Caetano e permaneceu como referência da comunidade, apesar de tentativas de substituí-lo por Kennedy na década de 1960.
Qual é a relação entre São Caetano e o Recôncavo Baiano?
O bairro recebeu muitos migrantes do Recôncavo e do sertão, incluindo afrodescendentes e descendentes de pessoas escravizadas e alforriadas. Essa presença ajudou a formar a identidade cultural e comunitária de São Caetano.
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Perguntas frequentes
- Como surgiu o bairro de São Caetano, em Salvador?
- A área surgiu a partir de antigas fazendas, especialmente a Boa Esperança e a Cruzeiro do Sul. Com a venda de lotes e a chegada de famílias de diferentes regiões da Bahia, o território se transformou em um bairro densamente povoado.
- Por que o bairro se chama São Caetano?
- O nome está ligado à devoção a São Caetano e permaneceu como referência da comunidade, apesar de tentativas de substituí-lo por Kennedy na década de 1960.
- Qual é a relação entre São Caetano e o Recôncavo Baiano?
- O bairro recebeu muitos migrantes do Recôncavo e do sertão, incluindo afrodescendentes e descendentes de pessoas escravizadas e alforriadas. Essa presença ajudou a formar a identidade cultural e comunitária de São Caetano.
